quinta-feira, 29 de março de 2018

FESTA DO TERNO DE REIS: A TRADIÇÃO DE NATAL QUE SE MANTÉM VIVA EM IBOTIRAMA


Apresentação do Reisado em 2006 (Foto: Reprodução/ Sec. da Cultura de Ibotirama)

    A folia de Reis, como é conhecida popularmente, tem história muito antiga. Mais antiga do que imaginamos. Do seu caráter religioso todos sabem, todavia, pouquíssimos conhecem sua verdadeira origem. Essa festa tem raízes pagãs, ganhando forma no longínquo passado, ainda na formação do cristianismo. Sua origem é atribuída à Espanha (Link), algo surpreendente, visto o apoderamento cultural dos brasileiros. No Brasil se disseminou no período colonial, tendo o Nordeste como porta de entrada.  
   
   É comum olharmos à realidade nordestina e ver o fervor imenso dos componentes dessa festa. Passados de pai pra filho e assim por diante, constitui poderosa identidade cultural. Na cidade de Ibotirama, localizada no interior da Bahia, não é diferente. Seus povoados e comunidades próximas, sempre formulam festas em homenagem aos mais variados santos. Sua essência sacra, tem a premissa da ida dos três reis magos até o local de nascimento de Jesus. 



MANIFESTAÇÃO CULTURAL NO POVOADO MAIS PRÓXIMO 



Apresentação na frente da casa de Dona Nêga (Foto: Reprodução/ Hivton Almeida)


    Fomos observar de perto no povoado do Cantinho, essas belas manifestações. Maravilhados com a receptividade dos moradores, pudemos aprofundar os conhecimentos historiográficos, visto que a cidade não apresenta livros detalhando essa marca do sertanejo. Dona Nêga, popular moradora e realizadora das ações religiosas, permitiu ser entrevistada e filmada para a coleta de informações, nos presenteando com a sua intensa manifestação cultural.

   As rezas são cantadas e tocadas, começando no dia 24 de Dezembro às 00:00, indo até o dia 06 de Janeiro, o dia da grande festa de Santo Reis, na casa de Dona Nêga, residente na Rua Marcelino Pereira da Fé, 90. As casas recebem o grupo. O morador oferece aquilo que pode para colaborar com o dia da festa. 

    São 10 pessoas, no grupo, cada uma exercendo sua função: Nêga - Canta, samba e toca triângulo; Tia Zélia - Canta e sapateia; Aleuzita (mãe de Nêga) - Sapateia; Geneliza (in memorian) - Cantava e sapateava; Gessy - Canta e samba; José - Canta e toca viola; Edson - Pandeirista; Manelin - Pandeirista; Léo - Caixeiro; Carlinho - Tambozeiro. Nossa entrevistada fez questão de citar sua comadre, Geneliza, pois foi quem mais incentivou a continuar com a tradição. 

   Dona Nêga fala com suas próprias palavras: "O Reisado é tudo para mim. Eu durmo e acordo pensando em Santo Reis". Contando a sua origem de gostar tanto da comemoração religiosa, a entrevistada relata: "Eu era levada pelo meu avô, desde criança. Ele levava um carrinho de mão, onde me colocava quando dormia, e também me deixava dormindo na casa de algum conhecido, até amanhecer." Testando os seus conhecimentos sobre os três reis magos, perguntamos se ela sabe o nome deles. "Gaspar, Baltazar e Belchior", responde.    

   Dando continuidade à entrevista, a moradora é desafiada a lembrar de algum fato engraçado durante sua trajetória ou alguma dificuldade que a marcou. "A dificuldade maior é a de transporte, pois os componentes do grupo para se deslocar até as localidades, pelo transporte, é por conta da dona dos Reis. Eu.", lembra. Sobre outra dificuldade ainda presente até os dias de hoje, fala do preconceito que sofre no centro da cidade. As pessoas não costumam acolher o movimento. Muitos, em suas palavras, "fazem o sinal da cruz, mas não permitem a entrada ou não dão esmola para a realização da festa".

   Sobre o início das lutas para a realização da festa, Nêga é bem clara com a sua memória, não deixando de lado nenhum componente importante, na construção desse verdadeiro patrimônio imaterial: "Começou por Dona Tarsila, que era amiga de Carmelo, meu avô. Ele tocava a caixa", diz, referindo-se à caixa sonora, instrumento usado nas apresentações.  "Dona Tarsila faleceu e meu avô continuou com a tradição. Hoje em dia ele tem 83 anos", comenta. 

  Lutas para manter de pé a tradição são grandes, porém, a maior batalha, Dona Nêga enfrentou no seu campo pessoal. Durante a conversa, a mesma relata um momento delicado, mas, um divisor de águas na sua existência. "Era uma pessoa depressiva. Vivia chorando, trancada num quarto. Fiz a promessa a Santo Reis, que se eles me curassem da depressão, acompanharia meu avô nas rezas, em sua devoção", continua, dando mais detalhes do início de sua caminhada, "No início eu não tinha a intenção, mas quando comecei a cantar chula, não parei mais". Como o seu avô, devido a idade avançada, não pode mais ir, ela continuou e hoje é a dona dessa tradição no povoado onde mora. 

  Questionada sobre as comunidades em que os moradores seguem com a folia de Reis para garantir recursos ao dia da festa, Nêga detalha, e a quantidade, impressiona: "Aqui no Cantinho, Escurial, Pedras de Dentro, Pedras de Fora, Itapeba, Linha, Juá Novo e o centro da cidade de Ibotirama".

Moradores foram bem receptivos (Foto: Reprodução/ Hivton Almeida) 


   Dona Nêga nos ensina como deve ser formada essa roda: "Para a roda acontecer, as pessoas precisam ficar em círculo fechado, em pé, e batendo palmas". A moradora do povoado em Ibotirama, ressalta a importância de todos fazerem parte, mesmo que não desejem dançar e aprender os cânticos. "Umas pessoas que tem o interesse de bater palmas, já ajuda". Quando perguntada sobre o futuro do reisado em sua comunidade, ela não é tão otimista, embora incentive os novos membros de sua família a compor: "Infelizmente se continuar assim, a tendência é acabar", fala a respeito do fato também das pessoas acabarem indo para as grandes cidades e centros urbanos, deixando suas raízes culturais em escanteio. 




  A dona da Folia de Reis já ficou responsável pelo reisado de três santos: São Cosme e Damião, Santa Luzia e Santo Reis. 

  A segunda parte da nossa entrevista consistiu em ver essa tradição secular de perto, com direito à Roda de Reis, participando da sua manifestação. Acompanhando com as palmas, vimos todo o vigor dos moradores constituintes, os quais têm muito fôlego para tocar, cantar as rezas,  e, dançar. O grupo de reisado de Dona Nêga, inclusive, conseguiu apoio da prefeitura da cidade, apresentando no centro para todos verem. O Banco Itaú Cultural fez parte nesse processo de divulgação. 





DIVULGAÇÃO DESSA CULTURA NA CIDADE DE IBOTIRAMA


Evento Encantos da Bacia 2017 (Foto: Reprodução/ Sec. da Cultura de Ibotirama)


  A cultura do reisado sempre teve o seu lugar nos eventos de emancipação da cidade. Como pode ser visto na imagem acima, o apoio da secretaria de cultura só aumenta. Mostra a concentração dessa festa nos arredores, alimentando a zona urbana com retratos importantes, havendo a necessidade de sempre serem exaltados. 

  Uma boa conversa envolvendo os responsáveis por cultuar e levar essa tradição a diante, é inspiradora, enriquecendo nossos conhecimentos sobre o local em que vivemos. No Festival "Encantos da Bacia", Dona Nêga apresentou-se com seus componentes de Reisado. Logo abaixo, um vídeo postado na internet, no Youtube, divulgando o trabalho da veterana. 


    
   

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