quinta-feira, 29 de março de 2018

FESTA DO TERNO DE REIS: A TRADIÇÃO DE NATAL QUE SE MANTÉM VIVA EM IBOTIRAMA


Apresentação do Reisado em 2006 (Foto: Reprodução/ Sec. da Cultura de Ibotirama)

    A folia de Reis, como é conhecida popularmente, tem história muito antiga. Mais antiga do que imaginamos. Do seu caráter religioso todos sabem, todavia, pouquíssimos conhecem sua verdadeira origem. Essa festa tem raízes pagãs, ganhando forma no longínquo passado, ainda na formação do cristianismo. Sua origem é atribuída à Espanha (Link), algo surpreendente, visto o apoderamento cultural dos brasileiros. No Brasil se disseminou no período colonial, tendo o Nordeste como porta de entrada.  
   
   É comum olharmos à realidade nordestina e ver o fervor imenso dos componentes dessa festa. Passados de pai pra filho e assim por diante, constitui poderosa identidade cultural. Na cidade de Ibotirama, localizada no interior da Bahia, não é diferente. Seus povoados e comunidades próximas, sempre formulam festas em homenagem aos mais variados santos. Sua essência sacra, tem a premissa da ida dos três reis magos até o local de nascimento de Jesus. 



MANIFESTAÇÃO CULTURAL NO POVOADO MAIS PRÓXIMO 



Apresentação na frente da casa de Dona Nêga (Foto: Reprodução/ Hivton Almeida)


    Fomos observar de perto no povoado do Cantinho, essas belas manifestações. Maravilhados com a receptividade dos moradores, pudemos aprofundar os conhecimentos historiográficos, visto que a cidade não apresenta livros detalhando essa marca do sertanejo. Dona Nêga, popular moradora e realizadora das ações religiosas, permitiu ser entrevistada e filmada para a coleta de informações, nos presenteando com a sua intensa manifestação cultural.

   As rezas são cantadas e tocadas, começando no dia 24 de Dezembro às 00:00, indo até o dia 06 de Janeiro, o dia da grande festa de Santo Reis, na casa de Dona Nêga, residente na Rua Marcelino Pereira da Fé, 90. As casas recebem o grupo. O morador oferece aquilo que pode para colaborar com o dia da festa. 

    São 10 pessoas, no grupo, cada uma exercendo sua função: Nêga - Canta, samba e toca triângulo; Tia Zélia - Canta e sapateia; Aleuzita (mãe de Nêga) - Sapateia; Geneliza (in memorian) - Cantava e sapateava; Gessy - Canta e samba; José - Canta e toca viola; Edson - Pandeirista; Manelin - Pandeirista; Léo - Caixeiro; Carlinho - Tambozeiro. Nossa entrevistada fez questão de citar sua comadre, Geneliza, pois foi quem mais incentivou a continuar com a tradição. 

   Dona Nêga fala com suas próprias palavras: "O Reisado é tudo para mim. Eu durmo e acordo pensando em Santo Reis". Contando a sua origem de gostar tanto da comemoração religiosa, a entrevistada relata: "Eu era levada pelo meu avô, desde criança. Ele levava um carrinho de mão, onde me colocava quando dormia, e também me deixava dormindo na casa de algum conhecido, até amanhecer." Testando os seus conhecimentos sobre os três reis magos, perguntamos se ela sabe o nome deles. "Gaspar, Baltazar e Belchior", responde.    

   Dando continuidade à entrevista, a moradora é desafiada a lembrar de algum fato engraçado durante sua trajetória ou alguma dificuldade que a marcou. "A dificuldade maior é a de transporte, pois os componentes do grupo para se deslocar até as localidades, pelo transporte, é por conta da dona dos Reis. Eu.", lembra. Sobre outra dificuldade ainda presente até os dias de hoje, fala do preconceito que sofre no centro da cidade. As pessoas não costumam acolher o movimento. Muitos, em suas palavras, "fazem o sinal da cruz, mas não permitem a entrada ou não dão esmola para a realização da festa".

   Sobre o início das lutas para a realização da festa, Nêga é bem clara com a sua memória, não deixando de lado nenhum componente importante, na construção desse verdadeiro patrimônio imaterial: "Começou por Dona Tarsila, que era amiga de Carmelo, meu avô. Ele tocava a caixa", diz, referindo-se à caixa sonora, instrumento usado nas apresentações.  "Dona Tarsila faleceu e meu avô continuou com a tradição. Hoje em dia ele tem 83 anos", comenta. 

  Lutas para manter de pé a tradição são grandes, porém, a maior batalha, Dona Nêga enfrentou no seu campo pessoal. Durante a conversa, a mesma relata um momento delicado, mas, um divisor de águas na sua existência. "Era uma pessoa depressiva. Vivia chorando, trancada num quarto. Fiz a promessa a Santo Reis, que se eles me curassem da depressão, acompanharia meu avô nas rezas, em sua devoção", continua, dando mais detalhes do início de sua caminhada, "No início eu não tinha a intenção, mas quando comecei a cantar chula, não parei mais". Como o seu avô, devido a idade avançada, não pode mais ir, ela continuou e hoje é a dona dessa tradição no povoado onde mora. 

  Questionada sobre as comunidades em que os moradores seguem com a folia de Reis para garantir recursos ao dia da festa, Nêga detalha, e a quantidade, impressiona: "Aqui no Cantinho, Escurial, Pedras de Dentro, Pedras de Fora, Itapeba, Linha, Juá Novo e o centro da cidade de Ibotirama".

Moradores foram bem receptivos (Foto: Reprodução/ Hivton Almeida) 


   Dona Nêga nos ensina como deve ser formada essa roda: "Para a roda acontecer, as pessoas precisam ficar em círculo fechado, em pé, e batendo palmas". A moradora do povoado em Ibotirama, ressalta a importância de todos fazerem parte, mesmo que não desejem dançar e aprender os cânticos. "Umas pessoas que tem o interesse de bater palmas, já ajuda". Quando perguntada sobre o futuro do reisado em sua comunidade, ela não é tão otimista, embora incentive os novos membros de sua família a compor: "Infelizmente se continuar assim, a tendência é acabar", fala a respeito do fato também das pessoas acabarem indo para as grandes cidades e centros urbanos, deixando suas raízes culturais em escanteio. 




  A dona da Folia de Reis já ficou responsável pelo reisado de três santos: São Cosme e Damião, Santa Luzia e Santo Reis. 

  A segunda parte da nossa entrevista consistiu em ver essa tradição secular de perto, com direito à Roda de Reis, participando da sua manifestação. Acompanhando com as palmas, vimos todo o vigor dos moradores constituintes, os quais têm muito fôlego para tocar, cantar as rezas,  e, dançar. O grupo de reisado de Dona Nêga, inclusive, conseguiu apoio da prefeitura da cidade, apresentando no centro para todos verem. O Banco Itaú Cultural fez parte nesse processo de divulgação. 





DIVULGAÇÃO DESSA CULTURA NA CIDADE DE IBOTIRAMA


Evento Encantos da Bacia 2017 (Foto: Reprodução/ Sec. da Cultura de Ibotirama)


  A cultura do reisado sempre teve o seu lugar nos eventos de emancipação da cidade. Como pode ser visto na imagem acima, o apoio da secretaria de cultura só aumenta. Mostra a concentração dessa festa nos arredores, alimentando a zona urbana com retratos importantes, havendo a necessidade de sempre serem exaltados. 

  Uma boa conversa envolvendo os responsáveis por cultuar e levar essa tradição a diante, é inspiradora, enriquecendo nossos conhecimentos sobre o local em que vivemos. No Festival "Encantos da Bacia", Dona Nêga apresentou-se com seus componentes de Reisado. Logo abaixo, um vídeo postado na internet, no Youtube, divulgando o trabalho da veterana. 


    
   

MORPARÁ E UMA BELA TRADIÇÃO FAMILIAR A SER LEMBRADA



Comemoração em homenagem a São Jorge (Foto: Reprodução/ Almenice Alcântara)

 O Reisado constitui partes importantes da cultura nordestina, justamente por unir os povos em comunhão com as suas manifestações religiosas. O cultuar não está só na devoção pelos santos, mas, também, na responsabilidade de manter essa tradição vívida. 
  
  Nas redondezas de Ibotirama, Bahia, a continuidade permanece latente no pessoal de Morpará, município que compõe a região da cidade. Embora não saibam dos detalhes mais profundos dessa tradição secular, os moradores veteranos, tem suas explicações mais pessoais, experiências passadas de avós para netos. 

    Contar o surgimento na região denota a análise da dinâmica social, pois engloba grandes passagens de tempo e peculiaridades, mesmo havendo a essência dos mesmos. Ganham a força imagética, isso, por que, a oralidade vem sendo transmitida por determinadas lembranças marcantes. 

    "Os reis começaram pelas promessas dos povos. O santo era de Sra. Claudimira, depois, passou para Dona Maria, e, assim, continuou a tradição. Depois disso tudo, Dona Preta, e, por último, Paizim. Os reis seguiam de Mocambo do Branco até Tamboril de Jacó. Havia leilões, cânticos e fogos para comemorar.", diz um morador da cidade, relatando detalhes de sua história. 

   O senhor continua com a sua explicação, lembrando das expectativas para o próximo ano: "Em 2019 há uma expectativa para seguir o reisado, segunda promessa de Paizim". As promessas, a qual é referida, são pedidos aos santos de devoção, tendo vista alguma causa a ser realizada pelas forças divinas. 

   Os instrumentos usados são vários, destacando os seguintes;
  
                             *Sanfona;
                             * Caixa de Reis;
                             * Pandeiro;




 "Antigamente, os uniformes eram femininos. Saias azuis e blusas brancas. Nos tempos antigos, homens não participavam dos Reis. Hoje já há participação masculina. Multidão de gente acompanhava os reis", finaliza, num retrato mental do que vivera. 

   O morador fez questão de responder uma das perguntas sobre  a comparação de antes das pessoas chegarem a modernidade, com os tempos de hoje. "Esses eventos ocorrem desde o tempo das pessoas mais idosas. Antes era muito animado, mas algumas pessoas já se foram, ficando filhos e netos que mantém essa tradição. É muito animado sair nas comunidades cantando os Reis. Além dos Reis, tem também as chulas, ou seja, os versos que os cantadores recitam. É muito divertido", dá a continuidade. 

  Explicando como é, "É assim: Cantam o restante para não deixar essa cultura morrer. Temos os cantadores que a maioria é daqui, e outros são das comunidades vizinhas. Temos os instrumentos, que são: Caixa, Sanfona, Pandeiro e Triângulo. Nós também fazemos os festejos de São José, onde dia 19 de Março, tem a reza, procissão, e logo ao anoitecer, tem leilões", finaliza as suas lembranças. 
   
 



    O primeiro retrato audiovisual é em comemoração ao Menino Jesus, data comum de ocorrer os reisados. Essa tradição, diga-se de passagem, se instalou como premissa em comemoração ao nascimento do filho de Deus. O segundo, além de ser para Jesus, também uma homenagem a São José, um dos vários Santos reverenciados pelas famílias sertanejas. 

   As músicas cantadas nos vídeos, são: "Reisado a São José", conhecida popularmente na voz de Clemilda, e "Santo Reis Está Chamando", conhecida na voz da Família Dias. 

    

  



    
   

sábado, 24 de março de 2018

BARRO VERMELHO TEM A MEMÓRIA CULTURAL BASTANTE VÍVIDA

Terno de Reis (Foto:Reprodução/ Neuraci dos Santos)

 
    Um dos povoados vizinhos de Ibotirama, no interior da Bahia, a comunidade de Barro Vermelho está no nosso século, não deixando às tradições de lado. Embora seja pequena, a mesma demonstra não estar disposta a esquecer o cultivo cultural. 
   
    Conhecida por uma forte manifestação do catolicismo, o local abriga tradicionais festas religiosas. Na igreja de Nossa Senhora da Conceição, por exemplo, as missas têm grande influência do latim. As senhoras mais antigas, vão passando para as demais gerações, seus conhecimentos dessa arte, fazendo com que se estruture firmemente ao longo do tempo. 

   O reisado da comunidade acontece todos os anos, iniciando no dia 25 de Dezembro, encerrando suas atividades no dia 06 de Janeiro. Entre o primeiro e o penúltimo dia, os moradores saem cantando nas comunidades vizinhas e arrecadando esmola, para a realização da festa de Santo Reis, a qual acontece no desfecho das comemorações. 




   Nesse dia, cantam os reis em todas as casas da comunidade, com a bandeira do evento, fazendo procissão, para logo em seguida, rezar a ladainha para o Santo. Logo após, acontece  a festa, com o intuito de servir os convidados. 

  Os organizadores do terno do reisado, são: José Alves de Souza e Maurício Evangelista.




FESTEJOS DE SÃO SEBASTIÃO E A CULTURA DO REISADO NA COMUNIDADE DE NOVA UNIÃO


    

Moradores reunidos em roda de samba (Foto: Reprodução/ Jeane Carla)
  



  Conhecido por todo mundo conectado ao ambiente católico, como o guerreiro protetor contra a fome e a guerra, São Sebastião tem lugar marcado na vida da comunidade de Nova União, próxima da cidade de Ibotirama. Todos os anos, os moradores se reúnem nas casas para festejar o reisado, sempre unindo a tradição nordestina com as fortes raízes religiosas. 
   
  Acompanhados com elementos musicais, como o pandeiro, violão e o triângulo, os participantes cantam músicas em alto teor de devoção.  Inclui-se nesse pacote tradicional, as danças no meio das rodas feitas pelos devotos durante os eventos. 

   Os festejos acontecem nos dias 19 e 20 de Janeiro. Quanto às rezas em louvor ao santo, acontecem no dia 20. Porém, as festas geralmente se iniciam antes, devido à comissão organizadora, além dos diversos ensaios de cânticos nas próprias residências dos envolvidos. 

    Essa tradição é tão latente, que já começa a florescer na vida dos moradores desde cedo. As mães levam os filhos para participar. Crianças a idosos, participam dos festejos comemorativos, sempre envoltos de bom humor.

  Mesmo tendo modificação no comportamento das novas gerações, essa cultura do reisado permanece firme. No vídeo abaixo, é possível observar a força cultural exercida pelo movimento. Considerando que vivemos em um país majoritariamente católico, não é surpresa, ainda mais agregando o fato dos povos sertanejos serem preservadores de suas tradições seculares. 

Moradora do povoado de Nova União (Foto:Reprodução/ Jeane Carla)

   
   Como pode ser vista na imagem acima, Maria Vieria Maria, conhecida popularmente por Maroca, serviu de fonte oral ao retratar como acontecem os festejos do dia de Reis. Carregando consigo conhecimento de sobra, a senhora é devota de São Sebastião, o qual tem um altar reservado para as suas orações diárias (Foto abaixo).

Altar de São Sebastião (Foto: Reprodução/ Jeane Carla)



   
   Essa oralidade intermediada pelos antepassados, constroem identidades de cada pedaço da região, passando de pai pra filho, e assim por diante. Os livros regionais expressam, na verdade,  aquilo que é contado nos locais. 

   Logo abaixo, um vídeo da comunidade reunida para os festejos. 





 



sexta-feira, 23 de março de 2018

LENDA DA SERPENTE ENCANTADA DO MIRADOURO



      XIQUE-XIQUE/BAHIA



A pesca compõe as atividades de subsistência (Foto: Reprodução/ Internet)




CARACTERIZAÇÃO DO MUNICÍPIO DE XIQUE-XIQUE

  Xique-Xique é um município brasileiro do estado da Bahiasua população estimada em 2017 era de 48.365 habitantes, segundo o IBGE. Está situado à margem direita do Rio São Francisco que abriga um porto de grande importância para economia da região. Seu nome refere-se ao cacto xique-xique, muito comum na região.

Praça da Cidade (Foto:Reprodução/ Prefeitura de Xique-Xique)





ASPECTOS HISTÓRICOS

  O município de Xique-Xique tem suas origens ligadas diretamente ao povoado do Vale do São Francisco. Em razão deste fato, a sua história somente será compreendida com o relato de determinados conjuntos de fatores que teriam motivado e possibilitado a penetração do Vale. O povoamento do Vale foi possível, entre outros fatores, pela introdução na área, a criação de gado que, na época, se destinava a suprir a falta de alimentos e a falta da força animal dos engenhos de açúcar. Com a derrota de Ameríndios em Sergipe as fazendas se multiplicaram e passaram a ser à base de suprimento da alimentação e do emprego da força animal para os engenhos de Pernambuco, Bahia e posteriormente, também, de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. As fazendas eram formadas situando-se à margem direita do Rio São Francisco, em terras, basicamente, pertencentes às duas famílias: A Casa da Torre e a do Mestre de Campo Antônio Guedes de Brito. A Casa da Torre possuía duzentas e sessenta léguas de terra pelo Rio São Francisco acima, à mão direita, indo para o sul, e indo do rio para o norte, oitenta léguas. As terras onde se posiciona o município de Xique-Xique eram de propriedades dos herdeiros do Mestre de Campo, Antônio Guedes de Brito. A área se estendia cento e sessenta léguas partindo do Morro de Chapéu à nascente do Rio das Velhas. Nesta área, parte dos currais pertencia aos detentores das terras e outros tantos pertenciam a terceiros que arrendavam sítios que, ordinariamente, mediam uma légua de extensão pagando por esse arrendamento dez mil réis.

  Os paulistas enviados para combaterem as guerras do norte, muitos deles não retornaram, preferindo permanecerem no Vale com a atividade de proprietários de grandes extensões de terras. De Bandeirantes, isto é, de despovoadores, passaram a conquistadores. A criação de bovinos no Vale era promissora empregando-se portugueses, paulistas, baianos, índios e negros.

 A conquista do Vale do São Francisco foi uma preocupação de D. João III, por isso, o primeiro civilizado a penetrar pelo rio e chegar à Ipueira, hoje conhecida como Ipueira de Xique-Xique, foi o então donatário da Capitania de Pernambuco, Duarte Coelho, em cumprimento às ordens vindas de Ultramar.

  O sertanista Belchior Dias em missão explorativa, desbravou o atual território de Xique-Xique, continuada por seu filho Robério Dias. Este se casou na aldeia de Juru ou Geru. Do casal nasceu o coronel Belchior da Fonseca Saraiva Dias Moréia, o qual ficou conhecido em suas andanças pelo sertão como Muribeca. Todos estes exploradores deram sequência às tarefas de seus antecessores passando pelo Rio Verde, com destino às serras do Assuruá e de Santo Inácio.

  Gabriel Soares de Souza, Capitão-Mor, Governador da Conquista e descobridor do Rio São Francisco, penetrou em terras de Xique-Xique, partindo de Jacobina tendo como seu guia o índio Aracy ou Guaracy, alcançou o Rio Verde. Segundo, Gabriel Soares de Souza nesta entrada em que usava índios mansos para atrair os bravos, acampados à margem do Rio Verde, certa noite despertou com uma briga entre o grupo. Para acalmá-lo, Gabriel Soares de Souza, agiu severamente o que ocasionou a dispersão do grupo. Gabriel Soares de Souza desapareceu nesta entrada próximo ao Morro da Fome, ponto de intercessão da atual linha limítrofe entre Xique-Xique, Central e Jussara.

  O interesse maior desses exploradores do sertão era descobrir minas de ouro, prata e pedras preciosas. A expectativa pela região foi despertada pelo segredo das minas de Belchior Dias. Assim como os currais de gado foi uma consequência ao povoamento do Vale do São Francisco, as minas da Serra do Assuruá foi uma das causas do povoamento do atual território municipal.

  Em relação à descoberta das minas de ouro nas serras do Assuruá e Santo Inácio, no século XVIII, a região já se encontrava repleta de rebanhos bovinos dos quais eram exportadas boiadas com 200 e 300 cabeças para o litoral. É nesta região de fazenda que se ergueu o aldeamento de Xique-Xique. A princípio iniciado na Ilha do Miradouro. Por volta da segunda metade do século XV ou XVI, se erguiu uma capela dedicada a Santa Ana.

  A Ilha do Miradouro, assim chamada em razão de um dos fundadores do povoado dizer: “daqui miro o ouro nas serras”, teve como seus primeiros habitantes brancos de olhos azuis os quais presume-se terem sido de origem portuguesa. A Ilha pertencia ao Fidalgo Coronel Garcia D` Ávila, pertencente à Casa da Ponte, que também fizera várias excussões pela região.

  Por volta do século XVI, ergue-se em terra firme um núcleo de povoação na fazenda Praia de propriedade de senhor Teobaldo de Carvalho, à margem direita da Ipueira de Xique-Xique. Conta à lenda que um tropeiro em direção a Salvador tivera certa manhã, sua tropa espalhada indo encontrar um dos burros no dia seguinte já descarregado e deitado à margem da Ipueira. Ao encontrar o animal o viajante fora acometido de uma intolerante dor de cabeça. Por inspiração, o viajante fez uma promessa ao Senhor do Bonfim, no sentido de que se a dor de cabeça passasse ergueria no local onde o burro estava deitado, uma capela e deixaria nela a imagem do Senhor do Bonfim que trazia consigo. Após a promessa solene, aliviou a dor de cabeça. Compreendeu o tropeiro que a imagem do Senhor do Bonfim não desejava sair da região. Construiu a Capela e nela colocou a imagem que ficou sendo o Padroeiro da Cidade.

  O desenvolvimento da povoação obedece a fatores diversos: primeiro a riqueza do peixe da Ipueira; segundo, a redescoberta do ouro e diamante nas Minas do Assuruá. Em 1714 o arraial já bem desenvolvido foi elevado à categoria de distrito com seu território desmembrado do distrito de Sento Sé. Pelo decreto de 6 de julho de 1832, Xique-Xique é elevado à categoria de vila.

  A criação de gado como atividade, inicialmente, subsidiária às indústrias açucareira das capitanias de Sergipe, Pernambuco, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso, muito auxiliou o povoamento do território municipal. Os primeiros povoadores do município, no que concerne à alimentação, passaram por sérias dificuldades. Carne e leite eram abundantes, porém, faltavam-lhes os alimentos básicos do sertanejo. No começo nada se plantava julgando a terra estéril. Só muito depois foi introduzido o cultivo de feijão, milho, mandioca e cana-de-açúcar. Os índios também cultivavam algodão, melancia, abacaxi e até cabaças.

Com a República, surgiu para Xique-Xique mais uma oportunidade de prosperidade: a extração da cera de carnaúba. Nestes períodos, surgiram na região, lutas sangrentas. O ajustamento em Xique-Xique foi satisfatório, embora só tenha ocorrido após a segunda Guerra Mundial. Ressurge a calma em Xique-Xique, aliás, é bom frisar, a participação nestas lutas foi mínima, e o crescimento recomeça. Passa então, a cidade, a receber os foragidos políticos de outras comunas vizinhas onde ainda continuavam as lutas. A classe dominante se fortalecia com o elemento da aristocracia de outras comunas, razão pela qual, estabelece a aristocracia em Xique-Xique oposta aos tradicionais pescadores fundadores da cidade.

  Daí por diante, a economia de Xique-Xique toma novos rumos no caminho do crescimento. A cidade passa a competir com a comunidade de Barra, no comércio e nos incentivos culturais. Fundam-se sociedades filarmônicas, grupos teatrais, centros literários e vários jornais como “A Ordem”, “O Progresso” e “Luz”, todos, porém, de vida curta.
Pelo Ato de 09 de julho de 1890 é criado o município de Gameleira do Assuruá como território desmembrado de Xique-Xique. Com este novo município Xique-Xique perde a sua principal área de extração de ouro e de diamante.

  Pela Resolução de 28 de abril de 1900, foram criados os distritos de Mata- Fome, Tiririca e Pedras, cuja aprovação ocorreu a 06 de junho de 1902.

  Com a Lei Estadual nº 2.082, de 13 de junho de 1928, a vila de Xique-Xique passa à categoria de cidade e pela Lei nº 2.204, de 08 de agosto de 1929 foi criado o distrito de Canabrava do Gonçalo passando o município a compor-se pelos distritos de: Xique-Xique (sede), Canabrava do Gonçalo, Mata-Fome, Pedras e Tiririca.

  Os decretos estaduais de números 7.455 e 7.479, respectivamente, de 23 de junho e 08 de julho de 1931, extingue o município de Gameleira do Assuruá e novamente incorpora seu território ao de Xique-Xique. Dois anos depois, pelo decreto 8.543, de 15 de julho de 1933, o ex-município de Gameleira do Assuruá é restaurado, passando Xique-Xique a ter uma nova composição administrativa. No quadro administrativo de 1933, iremos encontrar o município de Xique-Xique formado pelos seguintes distritos: Xique-Xique (sede), Canabrava do Gonçalo, Mata- Fome, Pedras e Tiririca.

  Pelo Decreto nº 9.114, de 1º de outubro de 1934, Tiririca teve sua sede transferida para o povoado de Central, ex-Roça de Dentro. Esta transferência não chegou a se concretizar. Interesses comuns, tanto da parte de Tiririca como de Central, somaram esforços no sentido de impedí-la, como de fato impediram-na. Em consequência da insatisfação gerada entre os políticos das duas comunidades, foi expedido o Decreto nº 9.387, de 26 de fevereiro de 1935, suspendendo a transferência da sede de Tiririca para Roça de Dentro e criando o distrito de Central. Passou, a partir daí, o município a compor-se pelos distritos acima nomeados mais o distrito de Central recém-criado. Esta composição se manteve inalterada até a emissão do Decreto Estadual nº 11.089, de 30 de novembro de 1938, o qual introduziu modificações toponímicas. Mata-Fome passou a denominar-se Ibiacema, Pedras para Marrecas e Canabrava do Gonçalo para Uibaí.

  Em 1931 Xique-Xique já exportava carnaúba, peixe, couros e peles e importava alimentos e combustível doméstico (querosene de cozinha). Com a carnaúba muitos xiquexiquenses passaram para a condição de afortunados, dessa forma a comunidade alcançou o seu apogeu.

Em 1940 surgiu na localidade de Rumo um garimpo de cristal de rocha. Este garimpo foi desativado com o término da Segunda Guerra Mundial. Alguns reflexos positivos constataram-se com a extração do cristal. Xique-Xique passou a ser o maior centro comercial da região.

  Durante esta fase de desenvolvimento acentuado, Xique-Xique abre caminho à Capital do Estado buscando a expansão da comunidade. É neste período que teve início o povoamento da região do Município. Com os seus interesses preso a determinadas comunas vizinhas, a zona do centro ambiciona sua própria emancipação político-administrativa abrangendo as vilas de Tiririca, Central e Uibaí.

 Políticos do “Centro” arregimentaram forças em favor da emancipação de Central almejando, deste modo, um projeto de emancipação política do distrito de Central transformado na Lei Estadual nº 1.017, de 12 de agosto de 1953. Com a autonomia de Central, Xique-Xique perdeu os distritos de Central, Lagoa da Canabrava e Uibaí, provocando uma queda no seu efetivo populacional.

  No quadro administrativo de 1965, Xique-Xique se apresenta com o seguinte quadro: Xique-Xique (sede), Copixaba, Iguira e Tiririca. Hoje, este quadro houve alteração, já que Tiririca, depois de emancipada, tornou-se Itaguaçu da Bahia.

  Pela Lei Estadual nº 628, de 30 de dezembro de 1953, foi criado o distrito de Lagoa da Canabrava, também transferiu a sede do distrito de Ibiacema para o povoado de Fazenda Nova com a denominação de Copixaba e alterou o topônimo de distrito de Marrecas que passou a denominar-se Iguira.

   O município de Xique-Xique possui como distritos: Iguira, composto pelos povoados de: Nova Iguira (sede); Associação Baixa do Cipó; Itapicuru; Nova Vida do Itapicuru; Vacaria; Rumo; Serra Azul; Marreca Velha; Canto de Pedra; Nova Boa Vista; Boa Vista; Roçado da Boa Vista; Carneiro; Porto Franco; Sítio; Muritiba; Vista Nova; Curral do Meio; Babosa; Angico do Rio Verde; Roçado do Rio Verde; Cantinho; Areia Branca; Alto do Santana; Mato Grosso; Estevão; Umburana; Juremal; Curral de Hernestino; Umbuzeiro; Fazenda Pedra e Vicente e o distrito de Copixaba, composto pelos povoados de: Angico; Paulista; Besouro; Tatuzinho; Jenipapo; Malhador; Pesqueiro; Ilhota; Pajeú I e II; Alto da Santa Cruz; Porto do Umbuzeiro; Barro Branco; Angical; Retiro da Picada; Lajes; Arroz; Juazeiro de Dentro; Caraíbas Rio; Brinco do Soinho; Associação do Bom Viver; Estevão; Carnaúba; Fazenda Santiago; Milho Verde; Maria Pereira; Itaparica; Associação do Miradouro; Capão do Martim; Cabeça do Surubim; Utinga; Nova Utinga; Forquilha; Saco dos bois; Alto Grande; Marruá I e II; Alto do Gonçalo; Pedrinhas; Mata Boi; Fazenda Manga; Manaíba; Fazenda Garrote; Campo Limpo; Água Branca; Capão do Saco, Sonhém.


Brasão da cidade (Foto: Reprodução/ Prefeitura de Xique-Xique)





Texto extraído do PME do Município de Xique-Xique, publicado no Diário Oficial do Município 3, quinta-feira, 18 de junho de 2015 | Ano III - Edição nº 00400 | Caderno 1.





SERPENTE ENCANTADA DO MIRADOURO



  As lendas locais constituem um ponto alto da cultura brasileira. Muito conectada ao folclore, são importantes na construção historiográfica dos povos de determinadas regiões. Juntando elementos simbólicos da cultura sertaneja, como a natureza e a religiosidade, contribui no contar cotidiano das famílias nordestinas. Esse é o caso de uma cidade no interior da Bahia com fortes valores passados de geração a geração.


Lenda é atrelada à construção da Igreja de Nossa Senhora Santana (Foto:Reprodução: internet)


   A Igreja de Nossa Senhora Santana, localizada na Ilha do Miradouro, em Xique-Xique, é, segundo a tradição, o mais antigo templo da região do médio São Francisco.  A construção dessa igrejinha é do início do século XVIII e se deve a um caboclo rico chamado Robério Dias Muribeca, neto de Caramuru e da índia Paraguaçú. Diz uma das versões da lenda, que a mãe de Robério virou uma serpente encantada porque não gostava de rezar, daí ele construiu uma igreja na Ilha do Miradouro para acorrentá-la debaixo do altar. Conta-se que de sete em sete anos ela vem dar de mamar às crianças que não gostam de rezar, e sempre anuncia sua chegada com um estrondo na igreja, deixando-a toda rachada. Os devotos rezam o "ofício" senão a serpente aparece e sai comendo tudo. 


   SAMBA DE RODA DAS RIBEIRINHAS DO MUNICÍPIO DE XIQUE-XIQUE/BA (GRUPO NA PISADA Ê)



     
Roda de Samba em Xique-Xique (Foto: Reprodução/ Markleide Oliveira)
Grupo "Na Pisada Ê" (Foto: Reprodução/ Markleide Oliveira)

Ribeirinhos em Roda de Samba (Foto: Reprodução/ Markleide Oliveira)

   BREVE HISTÓRICO  


   O grupo foi criado no ano de 2009, por dona Anita Nascimento e seu esposo Divino Nascimento, residentes no município de Xique-Xique/BA, no Bairro de Paramelos na praça São Pedro. Seu Carlos é quem compõe para família SAMBA DE RODA NA PISADA Ê, o grupo realiza apresentações nas escolas municipais, visando sempre a inserção da cultura no currículo educacional. É de costume todos os anos o Samba de Roda encerrar os festejos de São Pedro, onde os homens do grupo usam seu “Terno de Pescador” como forma de homenagem ao padroeiro do Bairro e do grupo já que os integrantes são também pescadores, esposas, filhos e netos de pescadores.


    A missão do grupo é fazer com que a população xiquexiquense perceba que a cultura faz a diferença na construção das identidades e sua valorização é um mecanismo que garante a sua difusão na sociedade. Trabalhos como este, ajudam despertar nas pessoas um sentimento de valorização pela cultura da cidade de Xique-Xique. 

    A seguir, uma reportagem da TV OESTE, a qual cita essa lenda. 







Fonte Histórica Popular